quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Sonho de Sete Faces

Sonhei. Ontem. Em uma noite fria. Estranhamente calma – moro próxima a um ponto de ônibus em uma avenida movimentada, na maior cidade do país. A janela estava aberta. Havia um vai e volta de vento, aqueles sopros que parecem cochichos. Às vezes tinham clarões, não sei se eram raios ou faróis. Apenas sei que sonhei. Foi apenas um sonho, mas com sete faces.
Eu era um anjo torto que dava ordens a um poeta ao nascer, “vá ser um gauche na vida!”, dizia ao pé da orelha esquerda. Eu vivia nas sombras, junto a outros anjos que estavam na mesma situação. Um nome me vinha à cabeça: Carlos.
De repente me vi em um lugar comum. Um lugar onde a vida alheia interessa. Onde as casas espiam. Onde os desejos se espalham impedindo que a cor do céu volte a ser azul. Eram os homens correndo atrás das mulheres. Desejos, desejos, desejos. E o azul a cada segundo mais distante do céu.
Eis que passa o bonde. Todos olhando para baixo. Todos identificando apenas pernas. E quantas pernas. Eram albinas, negras, mulatas, bronzeadas, amarelas. Tantos tipos de pernas em tão pouco espaço. Um bonde quase como um metrô em horário de pico na estação Paraíso, quase uma Sé. Meu coração ficava atrelado: quantas pernas, pra que tanta gente assim? Meus olhos, apenas cumpriam a missão deles: observavam, viam, admiravam.
Havia um homem que chamou minha atenção. Era um homem de bigode. Tentei decifrá-lo. Tentei descobrir o que havia por trás do bigode, o que escondia. Queria perguntar  por que não ria, o motivo da seriedade. Homem simples e forte. Quem eram seus amigos? Tinha amigos? Eram os poucos, tão raros. Era isso que trazia atrás desses óculos e bigode.
Em um momento de pânico e perdição, não sabia pra onde fugir. Comecei a me desesperar e a orar. Deus tinha me abandonado em uma cruz, e eu não era o Filho que esperavam, e Ele bem que sabia. Clamei forte a frase “Meu Deus, por que me abandonaste?”. Estava perdida, fraca e sem Deus.
Conseguinte, tentei achar uma solução. Com alguma rima de cartão. Invocando o mundo. Chamando-me de Raimundo. Não passava de rima. Solução que não vinha. Solução? Era tão vasto mundo. Mas menos que o coração.
Depois de passar por tantos extremos, chegou a hora de olhar para a noite, para a lua. O brilho, a intensa cor lunar propunha aquele conhaque. Era a fria, calada noite. Assim, o conhaque acalma o coração. Assim, abre o coração. E tudo acaba em comoção dos infernos, já estou comovida como o diabo. Era a lua, era o conhaque.
Mas isso... Isso eu não deveria nem ter te contado.


(Entrando na poesia de Carlos Drummond de Andrade - "Poema de Sete Faces")

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Meu Interior


Em uma aula foi determinado pelo professor que nós, alunos, faríamos - individualmente - um texto com o tema: viagem ao centro de si mesmo. Indaguei logo: qual seria meu centro, meu interior? E é exatamente assim:
“Achar o centro do meu interior e expô-lo seria um pouco doloroso para mim. Por isso, descreverei com muita atenção. O meu estômago é um pouco rebelde. Desde meus três anos de idade, judio dele enchendo-o de café, coca-cola e bolacha com maionese. Uma azia ou outra me faz lembrar que ele é o centro do meu interior e que merece uma prioridade.
Nas primeiras viagens que tive de Guaíra-SP para Cristalina-GO, meu estômago revoltou-se. Mas foi se acostumando com os 510 km de estrada (principalmente quando a Caravan de 1994 foi trocada pelo Vectra de 2002).
Hoje na capital paulista, ele sofre mais que nunca. Café em excesso, miojo, chocolate, cachorro-quente, misto-quente, cappuccino, bomba energética, coca-cola, salgados, entre outros itens diários – ou no mínimo semanais. O centro do meu interior, portanto, está extremamente afetado”.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Retrato na cômoda do Planalto

Com uma voz plácida e meiga, a mulher sussurra. A mulher com as doces palavras de sono. A noite fica mais bela, mais calma. Só pela voz da mulher. Mesmo com as gambiarras e as traições feitas por ternos de confiança, a mulher traz no sorriso o calmante da sociedade. O que mais esperava é dito pela mulher de voz suave: boa noite. É o que mostra o retrato. A bomba cômoda nas mãos da mulher.

sábado, 28 de maio de 2011

É assim que as coisas são

Até onde você pode ir?
E quem vai te impedir?
Meu amigo, ninguém vai te ajudar
Ninguém é seu amigo
Porque ninguém quer
Porque é assim que as coisas são

E você vai aceitar o que vier?
Não vai além do permitido?
Meu caro, ninguém vai te ajudar
Então não espere o conselho
Pare de seguir seu signo
Pare de me escutar: é assim que as coisas são

Os passos se entrelaçam, mas quer outra dose?
Acha que consegue chegar em casa assim?
Senhor estranho, ninguém vai te ajudar
As palavras bêbadas ainda não fazem sentido
O mundo não está pronto pra você
Mesmo assim, você vem... É assim que as coisas são:
Confusas e aleatórias

segunda-feira, 14 de março de 2011

Instante

(ao Diego Pontes)

Não quero mais que viver, meu amigo
Quero um teatro real e nenhuma plateia
Quero um barco sem mar
Quero mais que o possível vai realizar

Estou a caminho da sanidade, meu jovem
Direi adeus às minhas contradições
Vou correr a encontro do que é certo
E o certo nem sempre anda com o justo

Estou ouvindo aquela música, meu caro
Aquela que por dias sumiu do mundo
Que renasceu no secar de lágrimas
Essa música é a canção dos anjos... arcanjos da vida.